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  09:59

 Fonte: imagens leaborado por IA

Na rede estadual de educação o destino de alguns professores em fim de carreira é mais ou menos o mesmo: a biblioteca. A biblioteca da escola é onde o professor pacientemente aguarda sair sua aposentaria. De uma sala de livros que quase ninguém lê mais, a biblioteca, acervo do saber, vira depósito humano.

Para trabalhar o velho professor escolhe uma camisa qualquer, qualquer calça e segue para uma nova função enquanto a aposentaria é protelada pelo Estado brasileiro. Lá está aquele professor que por muitos anos estudou deveras, errou feio, ensinou bastante e aprendeu muito. Na biblioteca aquele homem ocupa uma mesa pequena, cadeira idem. Na mesa, uma caneta que não risca, papéis avulsos, acervo para carimbar, bloco de notas e livros novos de volta às prateleiras enferrujadas.

Vida pública: um livro aberto

A sala destinada a livros e professores esquecidos é relativamente grande. A ausência do público gigantesca. A goteira no teto só incomoda em tempo de chuva porque no verão a luz que passa pela buraco do teto controla o mofo e melhora a baixa luminosidade. Livros, mobília e sujeito encostados; paredes, pisos e sonhos surrados; poeira, traças e amigos parados no tempo.

Alguma vez um aluno ou docente atrevido na lógica adentra a biblioteca em busca de conhecimento, folheando páginas analógicas desta coisa “pré-histórica” chamada livro. O velho professor – bibliotecário de ocasião – assusta-se ante aquele traço quase perdido de culturalidade. Devoradoras de livros o velho mestre conhece apenas as traças literárias daquela biblioteca escolar.

Para passar o tempo que não passa, o professor caminha pela biblioteca e audaciosamente contempla livros, revistas, CDs e DVDs. Alguns materiais estão riscados, outros continuam sem acesso porque não são catalogados pela escola. Acervo de materiais novos e defasados misturam-se nas prateleiras do descaso e do discurso político de valorização da educação pública – “Bibliotecário para quê mesmo? Só para onerar a folha de pagamento do Estado!?”, pensará algum aspone do Governo. Na falta de espaço adequado para um patrimônio consideravelmente grande, obras entulham-se umas sobre as outras e ninguém se importa com isso, nem mesmo o velho professor.

– Já estava assim quando eu cheguei!

Julgar um livro pela capa!?

Finalmente um grupo de alunos adentra a biblioteca. Eles vêm acompanhados de uma professora novata que usará a biblioteca como sala de castigo, com a anuência histórica das secretarias de educação do Estado. “Vocês vão fazer um resumo deste capítulo do livro didático se quiserem voltar para a sala de aula! ”.

Claro que os alunos não querem voltar para lá e a nova professora transplanta com permanência e êxito seus alunos para a biblioteca, corroborando que aquele espaço é definitivamente um depósito humano e cultural. “Problema de sala de aula resolvido com sucesso. Isso deve contar como ponto positivo no IDEB da escola! ”, assimila o velho professor, bibliotecário de ocasião. Diante da vigilância frouxa do velho mestre, os alunos fingem ler o livro nos primeiros minutos do castigo literário; depois se afundam de vez nas páginas virtuais da internet dos celulares.

Mesmo já atingindo a idade e o tempo de contribuição da previdência social, será na biblioteca que esse professor aguardará sua aposentaria finalmente chegar. Até lá, esse iluminista cansado agirá tal como o Estado brasileiro: sem dó, sem remorso, sem estresse.

Eles por eles. Elas por elas.

Autoria própria

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