É uma piada de péssimo gosto o que se vive neste momento no Brasil: em plena reação às opiniões descabidas de outros aloprados, que defendem que quem vota no PT merece ser demitido, não deve tomar nem água e precisa ter a vida dificultada, os petistas pedem respeito, mas continuam plantando ódio, hostilizando pessoas, alimentando a polarização extrema e impondo uma verdadeira ditadura social e moral.
Na noite dessa terça-feira, o prefeito de Fortaleza, do PT, veio às redes sociais dizer que o show da dupla Jorge & Mateus no Réveillon da capital cearense está CANCELADO. Por quê? Qual crime eles cometeram? Eles votaram nos Bolsonaros e não nos petistas. Votar contra o PT virou crime? Os governos do Ceará [Estadual e municipais] e os cearenses deveriam cancelar eram as facções que dominam o estado de ponta a ponta e dizem até que água a população pode beber. Mas isso não gera nenhuma revolta.
De forma simultânea, porque é do mesmo grupo político extremista, o prefeito do Recife, Victor Marques (PCdoB), também cancelou a dupla no Réveillon de Recife.
No caso de Fortaleza, o próprio prefeito divulgou que as atrações “não tem cachê com dinheiro público”. Ou seja, nem é o poder público que paga as bandas. Recife não informou.
PLANTA ÓDIO; COLHE ÓDIO
Os dois episódios chegam no momento em que muitos defensores da democracia, da livre escolha e do voto livre infestam as redes sociais contra outros destemperados que pregam um suposto boicote contra petistas que, livremente, votaram no PT. E essa punição social e institucional teve efeito a favor dos extremistas petistas contra os extremistas bolsonaristas.
Só pra citar alguns casos, teve chefe de cartório demitida em Piripiri, no Piauí, após apenas compartilhar uma postagem em suas redes sociais e escrever “não dou nem água”; teve advogada demitida da OAB do ES por dizer que vai “dificultar a vida dessas pessoas”, sem nem citar que seriam petistas; teve médica demitida de hospital em Goiás por mensagem no WhatsApp pedindo que colegas não “dessem alta” a petistas; e teve até a Procuradoria-Geral da República (PGR), a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral do Trabalho sendo acionadas por intolerantes petistas por uma suposta perseguição de empresas a trabalhadores.
Todos os casos citados acima são de fanáticos desatinados, dominados por uma ideologia tola pregada pelo então deputado Jair Bolsonaro, amplamente divulgada em programas de baixíssimo nível intelectual na TV brasileira, que pautaram Bolsonaro e deram a ele uma imagem de quem acabaria com o sofrimento social de uns brasileiros e os privilégios de outros na base da bala, do soco. Programas como Pânico, CQC e Superpop fizeram isso, mesmo que de forma inconsciente. Nascia ali o “mito”.
Mas eles não estão sozinhos. Do outro lado, há uma militância de esquerda de extremistas ensandecidos dispostos a "fazer o diabo" como diria Dilma, para reproduzir a mesma intolerância que critica. Eles consegue ir além na contradição e fazem o linchamento virtual de qualquer um que não diga amém pra eles. Mesmo que seja o herói de onte, né Felca?
TEM COMO SABER QUEM É PIOR?
Primeiro, que o PT e sua militância precisam compreender que democracia não significa apenas respeitar o voto de quem escolhe Lula. Significa também aceitar que 59.826.041 brasileiros pensem diferente dos petistas, e não é por isso que sejam milicianos ou fascistas. Assim como ser lulista não significa ser faccionado ou simpatizante de terroristas como Hezbollah e Hamas, frequentemente associadas ao PT por seus adversários políticos. No caso do Hamas, responsável pelo assassinato de civis, o próprio PT condenou os ataques, mas evitou classificar expressamente o grupo como organização terrorista. Foram 64.256.232 votos em Lula, em um universo de 213.421.037 habitantes (população total do Brasil em julho de 2025, segundo o IBGE). Nem Jesus, se acreditam Nele, foi unanimidade. Por que o PT seria?
Segundo, que essa reação às ações dos destrambelhados bolsonaristas não pode vir de um contra-ataque de outra turma de tresloucados, desvairados, ensandecidos, alucinados e obcecados em razão de um partido político, com a ideia de que, para eles, tudo pode. Contra eles, nada pode. É preciso o mínimo de discernimento.
Terceiro, como alguém lúcido, que luta [mesmo que seja apenas em palavras] por direitos, por igualdade, por inclusão e por outro monte de bonitos adjetivos, pode se indignar por alguém querer demitir um eleitor de Lula, mas, ao mesmo tempo, fazer agitação digital para disseminar ódio contra uma apresentação artística? Apenas por esse artista não votar no seu candidato?
Os brasileiros precisam entender que o país vai seguir com o lado A ou B no comando. E que tudo nessa vida é passageiro, inclusive a própria vida. E que o país vive um clima de violência, de falta total de respeito entre todos os segmentos: filho contra pais, aluno contra professor, preto contra branco, rico contra pobre, empregado contra empregador. Tudo isso, fruto de uma política partidária separatista. O boicote, por qualquer que seja o motivo, mas principalmente apenas por não votar no mesmo candidato, é intolerância, perseguição e ameaça à democracia, sim, mas quando feito por qualquer pessoa. O grande problema é que os petistas só acham isso quando o alvo é o adversário.
O caso de Jorge & Mateus pode virar modinha, e a barbárie crescer e passar a atingir artistas que votaram em Lula, mas dependem de públicos que não são eleitores de Lula. E vai virar um caos. Não há notícia de que Jorge & Mateus tenham cometido qualquer crime. E com outros artistas será a mesma coisa?
E ainda entra o direito de cada cidadão. E os 3.652.032 cearenses e pernambucanos que não votaram em Lula não podem ter um artista de graça, um dos mais tocados no Brasil? Por qual motivo?
O BRASIL SEM FUTURO
O Brasil, da forma como caminha, parece condenado a um futuro cada vez mais sombrio. Um país que já viu presidentes presos, ministros envolvidos em controvérsias, senadores investigados, banqueiros e empresários presos e no centro de escândalos, mas que continua assistindo a uma população pobre, endividada e dividida em verdadeiros exércitos de fanáticos partidários.
Enquanto milhões de brasileiros enfrentam dificuldades para sobreviver, há quem desperdice tempo e energia promovendo motins digitais contra quem simplesmente pensa ou vota diferente.
Em vez de cobrar moralidade, transparência, respeito ao dinheiro público, ao seu alto imposto pago, e o cumprimento das promessas de campanha, parte da sociedade prefere defender políticos como se fossem donos da verdade e merecedores de privilégios eternos. Quem está convocando boicotes contra a corrupção, os privilégios e as mordomias sustentadas pelo contribuinte?
O problema do Brasil não é quem ocupa a Presidência, o Congresso ou o STF. É também uma sociedade que, muitas vezes, transforma políticos em ídolos, adversários em inimigos e a própria democracia em instrumento de conveniência. Enquanto o brasileiro se preocupar mais com o voto de quem ele nem conhece do que com o destino do dinheiro dos seus impostos, os poderosos continuarão desfrutando das mordomias, os partidos continuarão alimentando a divisão e o povo continuará pagando a conta. E, nesse ritmo, o Brasil estará apenas perpetuando os mesmos problemas, trocando os personagens e mantendo intacto o espetáculo da decadência.
Quem transforma adversários em inimigos, estimula boicotes e trata divergências políticas como defeitos morais não pode se surpreender quando a mesma lógica se volta contra se próprio.


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