Quatro dias após o primeiro turno das eleições de 2026, o prefeito de Campo Maior, Joãozinho Félix, decidiu passar a caneta na estrutura administrativa do município. Por meio do Decreto nº 118, de 8 de outubro de 2026, o gestor determinou a exoneração dos ocupantes de cargos comissionados, de confiança e funções gratificadas da Prefeitura, incluindo órgãos da administração indireta.
A decisão foi tomada no calor dos resultados das urnas, que devem ter trazido uma decepção política ao gestor municipal por, mais uma vez, não conseguir eleger o filho deputado estadual e pela baixíssima votação para federal.
Segundo informações apuradas pelo Campo Maior em Foco, a exoneração com aparência de coletividade é, na verdade, uma estratégia para punir pessoas e até lideranças que, supostamente, não votaram ou não trabalharam pela candidatura do filho e de aliados do prefeito, que tiveram resultados considerados frustrantes nas urnas, comparados à aprovação popular da gestão municipal de 83%.
O decreto foi publicado em 13 de outubro, mas estabelece que as exonerações produzem efeitos a partir de 9 de outubro de 2026. Ou seja, o último dia antes do pagamento dos comissionados, que acontece dia 10 de cada mês.
Ficam fora da exoneração coletiva os secretários municipais, superintendentes, controlador-geral, procurador-geral, procurador adjunto, diretor-geral do SAAE e servidoras protegidas pelas garantias legais relacionadas à gestação e à licença-maternidade.
FILHO TEVE MENOS DA METADE DOS VOTOS CONQUISTADOS PELO PAI
Em 2024, Joãozinho Félix conquistou quase 19 mil votos (18.804) em Campo Maior, garantindo sua reeleição para prefeito. Dois anos depois, seu filho, candidato a deputado estadual, obteve 9.330 votos no município, número inferior à metade da votação alcançada pelo pai.
Se João Félix se elegeu com 64,29% dos votos válidos, mas sua aprovação de governo está na casa dos 83%, a expectativa criada [pelo prefeito] era de que o filho atingisse uma votação recorde na cidade, chegando à casa dos 24 mil votos. As pesquisas apontam na casa dos 14 mil votos.
Embora se trate de disputas para cargos diferentes, a falta de unidade no próprio grupo político, segundo a visão de aliados, combinada ao pouco empenho dos comissionados, teria sido favorável à não aceitação do nome do filho. A insatisfação do gestor aumenta com a votação de outros aliados. O deputado federal Flávio Nogueira, candidato oficial do prefeito, foi apenas o 4º mais votado, com apenas 1.951 votos. Ciro Nogueira, o “senador do Joãozinho”, como ele mesmo se definia, ficou em terceiro lugar, com menos de 2 mil votos em comparação a Júlio César, o segundo colocado, que tinha apenas um apoio generalista de ser o senador do grupo do governador Rafael.
“VAI CHAMAR DE VOLTA SÓ OS DELE”
O documento condiciona as novas nomeações e designações à avaliação e à decisão expressa do prefeito. Fonte ligada ao prefeito, ouvida pelo Em Foco, garante que só voltam aquelas pessoas que eram alinhadas aos candidatos do prefeito, principalmente pessoas indicadas por vereadores que “pegaram pesado apenas para votos dos federais”.
SALÁRIOS ATRASADOS
O “canetaço” de Joãozinho Félix acontece em meio a uma crise administrativa que já vinha se arrastando desde o início do ano, atingindo principalmente os servidores contratados que ocupam funções de menor remuneração, como auxiliares de serviços gerais, auxiliares administrativos e trabalhadores de outros setores da estrutura municipal.
Desde março de 2026, a Prefeitura de Campo Maior passou a enfrentar dificuldades para cumprir o calendário de pagamento desses trabalhadores. Segundo informações apuradas pelo Campo Maior em Foco, os atrasos se tornaram recorrentes, chegando ao ponto de, a cada dois meses, um ficar sem pagamento.
A situação se agravou em setembro, justamente às vésperas das eleições, quando alguns servidores contratados chegaram a acumular três meses de salários atrasados. A apuração do portal aponta que, enquanto muitos trabalhadores permaneceram em silêncio para tentar “salvar” o emprego, outros decidiram deixar suas funções diante da falta de pagamento e das dificuldades para manter suas contas em dia.
Essa insatisfação também pode ter contribuído para o desempenho eleitoral abaixo das expectativas do filho do prefeito. Embora não seja possível estabelecer uma relação direta entre os atrasos salariais e o resultado das urnas, a crise administrativa ajuda a contextualizar o desgaste político enfrentado pelo grupo governista.
PREFEITURA JUSTIFICA MEDIDA COMO REORGANIZAÇÃO ADMINISTRATIVA
Oficialmente, o decreto apresenta justificativas administrativas, entre elas a necessidade de reavaliar a estrutura de direção, chefia e assessoramento, revisar lotações, controlar despesas com pessoal e adequar a administração às prioridades do orçamento de 2027.
O documento, com a certeza da interpretação pública, chega a afirmar que a medida possui natureza administrativa, geral e impessoal, sem finalidade eleitoral.



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